O CONFINAMENTO COMO FORMA LITERÁRIA: a narrativa memorialística de Diário de Fernando e Armadilha para Lamartine

the memorialistic narrative of Diário de Fernando and Armadilha para Lamartine

  • Jackson Raymundo UFRGS/UnB

Resumo

O amálgama entre forma literária e processo social tem um dos seus pontos altos no romance memorialístico atinente à ditadura militar brasileira (1964-1985), que dá luz a seus espaços de confinamento: de produção e circulação restrita à época, se tornaria abundante nas décadas seguintes. Este estudo visa adentrar nessa interação a partir da complexidade autoral, temporal e espacial de dois romances: Armadilha para Lamartine (1976), de Carlos Sussekind, publicado durante a própria ditadura, que retrata a tensa realidade brasileira de duas décadas antes e denuncia as violências do sistema manicomial; e Diário de Fernando - Nos Cárceres da Ditadura Militar (2009), escrito por Frei Betto com base os manuscritos de Frei Fernando, companheiro seu de ordem religiosa e de cárcere durante o regime. Obra testemunhal expressiva do período, Diário oferece questões instigantes, visto que a relação entre autor e narrador é complexa - o autor é personagem da obra, mas não seu protagonista. A crítica a respeito de Armadilha também escapa a qualquer linearidade. São muitas as “armadilhas” explícitas, omitidas ou camufladas: da polifonia autoral e locutória (o autor é um ou são dois?) à minuciosa memorialização histórica do contexto conturbado entre outubro de 1954 e agosto de 1955, passando por soluções ora dinâmicas ora mais subjetivas. Ambas as obras primam por características como o hibridismo de gêneros e a polifonia locutória, constitutivos de uma forma literária distinta. Representadas em diferentes situações de confinamento, permitem também interpretar seus narradores dentro da lógica foucaultiana da “microfísica do poder” própria desses espaços.
Publicado
2022-12-19