“TESTEI POSITIVO”

a indistinção de sentidos na pandemia

Resumo

Torna-se comum, a partir da pandemia, que se diga “testei positivo/negativo para o Covid-19”. O verbo “testar”, entretanto, até então não admitia essa forma. “Testar” sempre tinha sido, em português, um verbo transitivo, ou seja, que pedia um objeto. Porém, com relação ao exame para a detecção do vírus Sars-Cov-2, surge a questão sobre qual função sintática teria “positivo/negativo”. O artigo parte de tal questão linguística para compreender como o coronavírus, ao desacelerar a sociedade da mercadoria em seus processos, abala toda a tecnologia de linguagem, desde a língua até o meio por qual circula e se constitui contemporaneamente, isto é, até o digital. Com aporte teórico da análise de discurso brasileira de Eni Orlandi e ao realizar uma leitura do filósofo e médico francês Georges Canguilhem, a indistinção entre o sujeito e o laboratório é observada em tal sintaxe, assumindo efeitos de sentido particulares em uma materialidade histórica determinada pelo digital. A tese é a de que tal indistinção promova funcionamentos que permitem tanto a dissolução da ciência, que passa a se confundir com a experiência individual, quanto o apagamento da vida do sujeito, cuja identidade é dada não pelas formas concretas de vida mas pela abstração da técnica científica em tempos de morte.

Biografia do Autor

Mariana Garcia de Castro Alves, Universidade Estadual de Campinas
Professora substituta de Português no Instituto Federal de Santa Catarina, campus de São Miguel do Oeste. Doutoranda em Linguística na área Funcionamento do Texto, subárea Análise de discurso, na Universidade Estadual de Campinas. Bacharel em Comunicação Social pela Universidade Estadual Paulista e licenciada em Letras pela Universidade Metropolitana de Santos. Mestra em Divulgação Científica e Cultural, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas.Especialista (lato sensu) em Economia do Trabalho e Sindicalismo pelo Instituto de Economia/Unicamp e em Jornalismo Científico pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo/Unicamp.Realizou estágio doutoral em Linguística no laboratório Pléiade da Université Sorbonne Nord-Paris 13 Villetaneuse, em 2018/2019.
Daniel Augusto Feldmann, Universidade Federal de São Paulo
Professor do departamento de Economia da Universidade Federal de São Paulo. Doutor em Desenvolvimento Econômico, na subárea História Econômica, pelo Instituto de Economia da Universidade de Campinas. Graduado em Economia e mestre em História Econômica, ambos pela Universidade de São Paulo. Realizou pós-doutorado no laboratório SOPHIAPOL na Universidade Paris X, na França, em 2018/2019.
Publicado
2020-12-15